dael .l. lead

uma alma a menos | agencia de namoros: dael limaco at gmail dot com

November 22, 2010 at 9:19pm
Home

Na frente do cortejo

Dobrado sobre si, sentado à poltrona de couro marrom, Sr. Gunther ajeitava cuidadosamente as polainas em harmoniosa composição com os mocassim café-com-leite. O entardecer gelado justificava a lareira acesa, mas a razão da chama emoldurada em tijolinhos à vista era outra. Sr. Gunther queria apenas ficar de costas para a porta de entrada, por onde, em breve, Miss Daisy sairia, malas prontas e um impecável traje de viagem – dava sempre atenção aos modelos –, para não mais voltar.

De feições assinaladamente jovens, Sr. Gunther tinha por sob a pele um corpo vincado, ligeiramente trêmulo e débil, que geralmente o traia nessas circunstâncias. Assim que embora aparentasse tranqüilidade, levando o cachimbo a boca e pensando que uma vida a sós estaria ok Miss Daisy, vá embora se é isso que quer, se dispunha de garganta embargada, sentindo o gás do fim do mundo a entrar por debaixo da porta. Era como sentar ali e assistir a própria vida saindo estrada afora, indiferente, deixando para trás – por descuido ou convicção, nunca se soube – todas as pequenas lembranças que guardam a rota para o caminho de volta.

Porque ele sentia que não havia nada mais a fazer. Algumas forças existem naturalmente, sem prestar satisfação a qualquer sentido. Ao negá-las, as afirmamos. O melhor detetive resultaria no melhor fora-da-lei: para ser especialista num gênero, é necessário ter uma mente suscetível ao seu encanto e domínio. De modo que, no fundo, uma esfera de Sr. Gunther sorria ao abismo e gozava em sádicos staccatos fúnebres com os saltos de Miss Daisy que, nesse segundo, adentravam o corredor e vinham desenhando na madeira o caminho de uma despedida.

Mas isso era lá no fundo, num cubo dentro do Cubo, um cubo escuro e úmido que botava medo a todos os outros, pois enjaulava o monstro, num esforço que tinha prazo para tornar-se inútil. Os prisioneiros vivem apenas pela certeza do dia em que serão libertos, e pelo que farão quando o forem. Muitos desenvolvem a necessidade de vingança, pelo tempo que lhes meteram à grade. Enviam mensagens às entidades do tempo, pronunciando em voz alta, mirando a chama de um cigarro aceso, o que farão no dia da desforra… E estava nisso a cabeça do homem, temerosa ante a abertura do cubo, a ser inaugurada no momento em que Miss Daisy batesse a porta atrás de si.

Ele recitava mentalmente os versos de uma canção, num dia assim calado você me mostrou a vida, e agora vem dizer que é despedida, dorido por que estivesse vivendo às vísceras uma despedida mais, aquela que, entre tantas, arrastava a insustentável leveza de ser a última. Achava-se perdido em uma tristeza que lhe parecia forçosamente injusta. Como a acordar de sonhos intranqüilos, percebendo que tudo não passava disto mesmo – sonhos.

Ela parou no tapete circular que compunha a antessala, em frente a um retrato deles dois, e, sem prestar atenção alguma a esse detalhe – circunstância que ele jamais deixaria escapar –, começou a falar algo que poderia ser qualquer outro algo, palavras soltas que para ela ajudariam a compor uma cena de adeus.

Mesmo por isso, Sr. Gunther não pagou atenção ao primeiro terço da fala. Ele se manteve imóvel e, sentindo ser o mínimo a fazer por si mesmo, soltou um riso leve antes de responder, o que foi entendido como uma crítica ao improvisado discurso de despedida e a colocou irritada, o rosto todo se fechando em gesto automático, um magistral descompasso com o real sentido das coisas. Mas dessa vez e apenas dessa vez ele julgou melhor não se explicar. Disse apenas que preferia a verdade que lhe foi negada, lamentava mais que tudo aquilo lhe ter sido jurado de boca para fora. Mais do que os beijos gelados dos últimos dias, mais do que o fato de ela ocupar-se agora com um outro, mais do que o fato de ela nunca lhe dar a mão num passeio – era a jura vaga e descuidada, o desprezo pela sinceridade. Porque isso corrompia todo o resto.

Ele jamais saberia se o interesse pelo outro, as mensagens no celular, as saídas, eram mesmo coisa de sua cabeça, como ela lhe jurou. E, mesmo lhe parecesse idiota, pensava em coisas sobre as quais jamais teria certeza; se ela alguma vez o amou, ou se o orgasmo dela, naquela derradeira noite, que pareceu tão iluminado e intenso – talvez catártico –, foi algo além de uma estúpida e desesperada cena, a tentar compensá-lo pela dramaturgia eterna daquele amor.

A mentira que saltava aos poros naqueles últimos dias soterrava as juras de paixão, a “nossa coisa tão especial” thing, os planos de uma vida inteira. Transfigurava tudo num mar denso de ilusões. E era o que ia dizendo ele, de si para si, julgando inapropriado envolvê-la agora que tudo parecia contaminado, agora que estava invisível qualquer referencial de confiança – uma situação inteiramente nova, e assustadora.

E assim mesmo uma situação que para ele era repleta de significado, de um único e pungente significado: o de que já nada mais tinha sentido. Quando ela resolveu sentar-se, juntando-se ao silêncio dele e, como ele, encarando o quadro em chamas, tudo se preencheu desse sutil sentido: o vazio.

O que restaria quando o mais real dos sentimentos se juntasse ao clube dos sonhos quebrados? Aqueles minutos de vantagem, em que ela parecia ainda estar ali – o fato é que já não estava há meses –, eram os mais felizes e mais tristes de uma vida toda. Felizes porque eram os últimos em companhia daquela pessoa que despertou nele o mais profundo e puro amor que um coração pode conceber, triste porque nenhuma ação ou palavra fariam os universos se expandirem um até o outro, num abraço silencioso e destruidor, como o de duas galáxias que se encontram no espaço.

A história já estava escrita, e prenunciava o fim para este exato dia – talvez tenha sido essa a única verdade que ela lhe disse. No momento, ele a teve por cruel, por dizer algo assim, estabelecer data e hora para o ponto final, mas ela estava sendo sincera. O fato é que, sendo sincera, deveria ter saído pela porta aí mesmo, data e hora em que assinalou o prazo, mas esse respeito escapava à sua singela falta de experiência. Com a cegueira dos que não querem ver, ele não viu. Mas a crônica de morte já estava anunciada, a história já estava escrita, já estavam lá todas as palavras. Assim as vírgulas, os parágrafos e as grafias equivocadas.

O ponto final encerra qualquer história, sem juízo ou moral, seja real ou inventada. De tal que agora as duas histórias se juntavam, como pela primeira vez. Sinceros ou não, os sentimentos dela invadiram os dele nos crépitos da lareira, fugazes como as labaredas, indescritíveis como a textura do fogo alaranjado.

A enxurrada de palavras punha-se já num qualquer vestígio quando Miss Daisy se levantou. As mãos dele, que estavam ambas sobre os joelhos, permaneceram imóveis, mas essa decisão, a essa altura, já não lhe pertencia. Quando ela andou em direção à mala, a mente do que ficara sentado começou a girar e misturar-se à sala, às memórias, aos gostos e desgostos, às viagens, às músicas, ao peso da perfeição, ao amor e à sua ingratidão, às cores e ao cheiro dela, que ele jamais esqueceria. Quando ela abriu a porta, os sentidos entraram uns nos outros, os olhos cegaram e ele desfaleceu-se na poltrona. A batida da porta deixou o corpo todo ele rijo, e era como se todas as memórias fossem bandagens sendo arrancadas violentamente de uma pele em carne viva.

Depois de três minutos ou três anos, debatendo-se em busca de um último instinto humano, ele conseguiu se levantar. Ao ficar de pé, a ação da gravidade o fez sentir o peso de um algo novo, dentro de si, como um cilício cravado diretamente à espinha da alma, um montinho negro e cancerígeno, para lembrar-lhe sempre que as viagens ao paraíso são guiadas pelo diabo. Sentindo o imenso vácuo de quem agora carregava a morte consigo, Sr. Gunther foi até a cozinha e tomou um copo d’água.

Notes

  1. dael posted this